Tomar partido. Por quem ?

Aproximam-se tormentas.
Fica por saber se depois virá alguma bonança.
Os Partidos, chamem-se eles o que quiserem (união, movimento, comissão, plataforma, bloco, convergência, nós, todos, oliveira ou qualquer outro nome ) são um conjunto de pessoas que toma parte, que  se assume num terreno social, que está de um lado. São um grupo que se posiciona para responder aos anseios, às necessidades, aos interesses, aos projetos de um setor mais ou menos alargado de pessoas. Propõe-se intervir, eventualmente exercendo o Poder, em representação dessas pessoas.
Quando os que tomam partido se constituem em Partido e algures se 'esquecem' do partido que se tinham proposto tomar desaparecem como organização, são inúteis para aqueles por quem era pressuposto terem tomado partido.

O meu grupo de pertença é o Partido Socialista.
Foi constituído tomando partido pelos que tinham pouca voz, pelos descontentes do salazarismo, pelos amantes da liberdade, pelos sonhadores de um tempo melhor. Ganhou raízes do lado de quem trabalha, do lado daqueles que viram na democracia um espaço de esperança e uma via para o progresso coletivo e individual.
Quis-se do lado de uma parte muito ampla da população portuguesa que acreditou numa sociedade mais humana e mais justa. Afirmou-se como um Partido interclassista e foi-se constituindo como porta voz de um sentimento alargado de crença na possibilidade de uma vida melhor.
Como a sociedade resulta de realidades concretas e não são as ideias bondosas que por si só moldam as existências humanas o Partido foi-se adaptando à necessidade de tomar partido por várias partes nem sempre coincidentes ou sequer convergentes.
Na construção tardia da modernidade portuguesa foram sobretudo os diversos grupos que se entrelaçam numa idealizada 'classe média' que mais contribuíram, direta e indiretamente, para que o Partido referenciado pelo Socialismo fosse tido como expressão válida de uma parte muito alargada de portugueses.

Ao longo de algumas décadas o Partido Socialista cresceu e repetidas vezes governou dando
Lei de Bases da Saúde
expressão ao sentir e ao querer dessas partes da população que ambicionava a construção tranquila de um futuro decente e mais solidário.
O "pacto social" de matriz europeia existente no pós guerra serviu, mais ou menos bem, de modelo para a construção de um Estado Social que apesar de débil permitia ambicionar uma via de crescimento assente numa coleta justa de impostos com alguma capacidade de redistribuição e de desenvolvimento "harmonioso".
Como a partir dos anos 90 o Mundo mudou muito esta corrente política onde me situo viu-se confrontada com dilemas essenciais.  Afinal qual é a parte, das várias partes existentes, em que o 'socialismo democrático' se enraíza ?
Ou dito de outro modo o socialismo democrático/trabalhismo/social-democracia toma partido por quem ?
Muitos Partidos dos que não tiveram resposta clara e acertada para esta questão  foram reduzidos a uma expressão muito reduzida e há fortes razões para acreditar que esta tendencia se acentua.
É sabido que alguns, como o Labour do Reino Unido, ao retomarem as batalhas históricas do socialismo ganharam um novo ânimo e parecem estar a reconquistar a confiança daqueles por quem os Trabalhistas se propõem tomar partido.
Em Portugal a chamada Geringonça permitiu um novo alento ao Partido Socialista.
Lei de Bases do Sistema Educativo
Por tudo isto é bom lembrar hoje que nas opções em duas áreas essenciais - a EDUCAÇÃO e a SAÚDE, quando se tratou de definir os seus enquadramentos estruturantes o Partido Socialista tomou partido por todos quantos queriam que o Estado assegurasse serviços públicos para todos e com qualidade.
Politicamente tomou partido, com a demais esquerda, na defesa de princípios que não agradaram a quem habitualmente toma partido pelos interesses dos muito ricos.
Talvez também por isso o Partido Socialista tem tido, durante bastantes anos, largo apoio entre quantos se relacionam direta ou indiretamente com o serviço público da educação e da saúde.
Iniludivelmente são setores onde, nomeadamente, um larguíssimo número de profissionais têm sentido que o PS toma partido por, e com,eles.
Nos dias que correm temos razões de sobra para refletir responsavelmente sobre esta realidade.
Afinal, tomar partido por quem ?



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